E nasce Dimitri
Hoje o dia começou diferente. Além dos sacolejos habituais, tem algo me espremendo volta e meia. Não é nada bom.
O mundo à minha volta definitivamente está movimentado hoje, pois, além da deusa e seu acompanhante, ouço vozes lá de fora. E continuo sendo espremido volta e meia, cada vez mais forte e por mais tempo. Mexo-me em indignação, para que a deusa perceba meu descontentamento.
Muita coisa está ocorrendo hoje. A deusa está gritando, e eu não paro de ser apertado. Posso sentir seu descontentamento, sei que ela não me deixaria passar por esses maus bocados sem reagir. Ela deve estar berrando com o responsável pelo meu desconforto.
Ai, é tão incômodo. Ainda não consegui tirar meu cochilo, desde que todo esse aperto começou.
Depois de muita movimentação, a deusa parou de urrar, agora só geme bastante. Sinto-me caindo, caindo lentamente, minha cabeça especialmente espremida. Ouço vozes lá fora que nunca ouvi antes. Se eu pudesse daria uma lição a essas pessoas por incomodarem meu santuário!
Ah, meu Deus! Que aperto, estou todo espremido, estou girando...
Luz! Muita luz! QUE LUGAR HORRÍVEL! Estou respirando algo que não é água pela primeira vez, e incomoda! Acontece tudo tão rápido, há vários gigantes em volta de mim e sou passado de mão em mão até uma gigante de cabelo grande. Tenho vontade de fazer xixi e me alivio em seu colo. É a deusa! Tem de ser! A voz é idêntica!
Mal percebo, mas estou urrando igual ela estava momentos atrás nesse instante. É tudo tão intenso, tão claro, tão frio e horrível. Deusa, me devolva para meu antigo lar, por favor!
Outros gigantes me pegam em seus braços para fazer procedimentos estranhos comigo. Ouço a voz do assistente da deusa, acho que ele é o gigante barbudo ao meu lado. Não consigo parar de berrar, algo está errado comigo. Que mundo horrível.
Escuto a deusa falar ao fundo, e o gigante barbudo me coloca em seus braços e me envolve num pano bem quentinho. Pela primeira vez, me sinto acolhido como em meu antigo lar.
O gigante fala muitos grunhidos incompreensíveis em um tom maravilhosamente calmo, e aquele cochilo que não consegui tirar o dia inteiro parece mais próximo de mim. Deixo o sono me envolver ouvindo a voz daqueles que me acompanharam em minha antiga casa, e, por mais que este novo mundo seja muito estranho, sinto que tudo vai ficar bem.